Jovens recém chegados na profissão promoveram no periódico o exercício investigativo possível durante a ditadura militar nos anos 1970

JM convite

 O assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em uma cela do DOI-Codi, em São Paulo, em outubro de 1975, pelo qual o Estado brasileiro foi condenado, no início do mês passado, pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, é um dos episódios centrais do livro Jornal de Minas – histórias que ninguém leu. O livro foi lançado pela Páginas Editora na Livraria Ouvidor, na Savassi,  em Belo Horizonte), no dia 11 de agosto.

Uma semana depois de Herzog ter sido torturado e morto pela ditadura militar, o “Jornal de Minas” endossaria, em editorial de capa, de página inteira, a versão oficial de que ele teria cometido suicídio. A manifestação explícita das afinidades do jornal com a ideologia e as práticas do governo militar fez com que boa parte da Redação se demitisse e deu origem ao tabloide alternativo “De Fato”, para alimentar o sonho de resistir à ditadura.

As ligações da direção do jornal com o regime militar, até então, eram sabidas, mas não transpareciam no dia a dia da Redação. Campanhas contra a mineradora MBR, que devastava a Serra do Curral, contra a fábrica de cimento Itaú, que cobria de poluição a cidade de Contagem, e contra as mazelas do governo do Estado mostravam o lado combativo e independente do “Jornal de Minas” e animavam os jornalistas que nele trabalhavam.

Memória e documento de uma época

Eram, na maioria, iniciantes na profissão, com todo o pique para aprender as trilhas do ofício com os mais experientes e cumprir sua parte na missão de mudar o mundo. Mesmo com salários quase sempre atrasados, filas no final do mês para receber vales e condições de trabalho precárias, lá estavam eles, com entusiasmo, produzindo todo dia o jornal que o vendedor Sapo, gritando com seu vozeirão manchetes inusitadas, começava a distribuir de madrugada pelos bares da boemia de Belo Horizonte.

O livro reúne textos de 34 jornalistas que passaram pelo “Jornal de Minas”, contando livremente suas experiências, resgatando fatos marcantes da conturbada vida política brasileira e rememorando situações insólitas ou pitorescas do ambiente de trabalho naqueles “anos de chumbo”. Nos espaços da Redação circulavam livremente cachorros da raça dálmata, gente pouco amistosa como o famigerado Zeca Diabo, a quem se atribuíam dezenas de mortes como pistoleiro, e agentes da censura, que os editores costumavam ludibriar com criatividade e artifícios.

Também são contados no livro os antecedentes do “Jornal de Minas”, que teve origem no antigo “O Diário”, de orientação católica, criado em 1935 e mantid

o pela Arquidiocese de BH. O chamado “Diário Católico” sobreviveu até 1972, quando foi comprado por um grupo de empresários, entre eles Afonso de Araújo Paulino, do setor de exploração de pedras preciosas. Afonso Paulino, o Minhoca, que seria anos depois presidente do Clube Atlético Mineiro, era o big boss do jornal no período em que aconteceram quase todos os fatos narrados no livro.

Em entrevista que encerra a publicação, feita por um grupo de jornalistas que trabalhavam no “Jornal de Minas” naquela época, a única em que falou sobre seu envolvimento com a ditadura, o polêmico dirigente, agora com 81 anos, responde, ora de modo contraditório ou evasivo, ora com informações minuciosas, a todas as perguntas que lhe foram feitas, com destaque para as que se referem a seu apoio ao regime militar.

O jornal acabaria em 1988, já sem expressão no cenário mineiro. Mas por um bom período, em que havia boa dose de liberdade editorial, ousadia e independência, ao lado de tensões e contradições, e ao mesmo tempo de uma convivência fraterna, deixaria muitas lembranças e aprendizado para uma legião de jornalistas que por ele passaram.

@mirianchrystus

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